O império sorri, a beleza encanta, uma canção atravessa o mundo dos homens, certo e errado, amor e rancor, tudo se dissipa no vazio.
— Quirã, você é maluco! — Yoyo desferiu um tapa, despedaçando o sonho adolescente de um primeiro amor.
Yoyo era colega de Quirã no ensino médio, uma verdadeira beleza: rosto afilado, olhos amendoados, pele alva e macia, e um corpo sedutor que não condizia com a idade. Quirã nutria admiração por essa musa da escola há tempos. Hoje, finalmente criou coragem e, com o dinheiro economizado de pequenas privações, reservou um banquete no restaurante mais sofisticado do centro, tudo escolhido conforme o gosto de Yoyo.
A escolha do lugar e do cardápio era fruto dos conselhos de sua amiga, Lúcia Xian. Lúcia garantiu que Yoyo também nutria uma paixão secreta por Quirã, esse aluno exemplar e estudioso, mas que, por ser uma moça reservada, jamais tomaria a iniciativa. Lúcia, inclusive, informara a Quirã sobre os gostos de Yoyo e, em troca, ele ofereceu a ela o seu cartão de acesso livre à biblioteca.
O cartão de acesso era uma recompensa dada pelos professores aos melhores alunos. Lúcia se interessara por um rapaz alto de outra turma que possuía tal privilégio e, com um olhar suplicante, pediu a Quirã que cedesse o cartão para ela. Ele, tocado pelo pedido e desejando incentivar um romance na escola, cedeu o cartão, que para ele pouco valia, já que passava a maior parte do tempo na biblioteca. Afinal, Quirã era o responsável pela administração dali, um privilégio concedido pela escola, que também lhe garantia alimentação, moradia e isenção de taxas.
Apesar de ser um aluno brilhante, Quirã tinha origem humilde. Seus pais, ambos desempregados, sobreviviam de bico