Em tempos de grandes disputas, a vida humana valia menos que a relva; no crepúsculo das dinastias, as chamas da guerra se espalhavam por toda parte. Senhores da guerra dividiam territórios, desastres sucediam-se ano após ano, e aquela terra outrora próspera tornava-se, por vezes, um deserto onde não se via uma única alma, nem se ouvia o canto de um galo por centenas de léguas. Contudo, acima deste mundo em caos, além do véu do cotidiano, havia ainda aqueles que partiram e estavam prestes a retornar. Eram eles parte de lendas, de mitos... E, diante de tal era grandiosa, numa pequena cidade fronteiriça, Yang Yu ergueu os olhos e viu nuvens negras revolvendo-se no céu, prenunciando a tempestade iminente. ....................... Há também livros anteriores, como "A Projeção dos Mundos" e "Crônica do Grande Caminho". Aos que apreciam, recomendo a leitura.
Ano 404 da Grande Ming, sétimo ano de Qianyuan.
Qingzhou, Prefeitura de Shunde, Cidade da Montanha Negra.
No final do verão, já próximo do outono, embora o tempo permanecesse abrasador, havia no ar um leve presságio de mudança.
O trovão ribombava de longe, avançando sobre nuvens densas e carregadas, aproximando-se lentamente do céu escurecido.
A chuva fina, caindo sem cessar, formava linhas quase invisíveis entre o céu e a terra, atravessando o espaço por completo. Vinha das montanhas distantes, deslizava sobre os campos próximos e, por fim, caía sobre a cidade cercada pelos muros cinzentos e esbranquiçados, banhando tudo ao redor.
A água escorria fria das beiradas dos telhados, despencando sobre as poucas pedras de laje espalhadas pelas ruas, estilhaçando-se em mil gotas.
"Está chovendo de novo..."
Yang Yu ergueu levemente o rosto, olhando para o céu sombrio, o humor tão nublado quanto o dia.
Vestia roupas de linho cinzentas e gastas, cheias de remendos e buracos, calçava sandálias de palha, e diante daquela chuva torrencial, já sentia o corpo arrefecido.
Nos dias de chuva, o melhor era não sair de casa.
Esse era um saber popular entre os moradores da cidade exterior, e ele mesmo já o comprovou, mas...
"Vovó, estou indo trabalhar!"
Suspirando, Yang Yu pegou o chapéu de palha pendurado na parede e se preparou para sair.
"Filho, vá com calma."
Da casa saiu uma idosa de cabelos brancos, que, cheia de carinho, segurou-lhe a mão e colocou um ovo em sua palma,